sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Liloca era o que Liloca foi



Oi, gente. Cansado de fórmulas. Cansado de respostas. Da infinidade de respostas que exigimos para dar um passo. Cansado de certezas, todas parciais, todas criadas, todas destruídas. Nem por isso triste. Não quero entender nada. Quero a taça transbordando de qualquer coisa. Da coisa que eu não sei o nome eu quero só o gosto. Igual a Liloca, a minhoca:


Liloca, a minhoca, cavava a terra como quem dorme. Vivia nos dois metros quadrados de uma horta de alface em Aguardo. Liloca era um tubo marrom de menos de 10 cm, mole, frouxo. Não sei o que comia (não me interessei em pesquisar nos livros de biologia) e tenho certeza que ela, a minhoca, também não sabia. Sabia rastejar, lentamente, criando túneis da largura do seu corpo que, em uma semana ou duas, colabariam (suponho). Liloca entrava e saía numa interminável orgia com o barro, sem ápice, sem êxtase, sem clímax. Dizem que ajudava na plantação, mas Liloca, indo e vindo, entrando e saindo, não tinha intenção, não tinha vontade, não respondia a questionários sobre os motivos da escavação (nada sei da psicologia destes bichos). Liloca era uma minhoca. Nada interessava mais a Liloca do que ser uma minhoca. Não a rainha das minhocas. Não a poeta das minhocas. Não outra coisa além ou aquém, acima ou abaixo, melhor ou pior do que ser uma minhoca. Liloca morreu da mesma forma que viveu. Sem alarde. Não houve eclipse. Trombetas não soaram. Morreu amassada pela borracha da sola de um sapato junto com outras três. Não houve funeral. As minhocas restantes não choraram. Liloca era o que Liloca foi. Nenhum futuro para o espírito de Liloca (não me interessei em estudar a teologia das minhocas). Nenhuma mágoa de Liloca pelo que deixou de fazer. Nenhum plano de Liloca havia sido frustrado. Nenhuma queixa de Liloca foi ouvida quanto ao peso do sapato. Ninguém se lembra de Liloca. Nem ela (que morreu), nem eu.


A foto aí de cima é uma das que eu mais gosto. Foi tirada em Toronto, no início deste ano. Dei o nome de `Colombo, o pombo`. Depois daquele breve instante nunca mais vi Colombo.

Inveja imensa de Liloca, a minhoca, e do pombo Colombo. Não pela morte ou pelo desaparecimento de ambos. Inveja do que eram ou são.
beijos

7 comentários:

Ana Claudia disse...

Gregory!!!
Antes de ler o seu desfecho eu pensei: que inveja da Liloca!!! rsrsrs

E eu ri...

BLOG do CHICO LINGÜIÇA disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
BLOG do CHICO LINGÜIÇA disse...

Antes de ler o seu desfecho eu pensei... o que eu mais queria desejar ser é a Liloca...

que lindo Gregs... muito mesmo!

Beijo grande

PS 1: Pôxa, tá difícil d agente combinar um programa coletivo hein?]

PS 2: Alzira voltou lá no blog...

Rafael Koehler disse...

Aguardo ansioso pelo "Aguardo"

BLOG do CHICO LINGÜIÇA disse...

tem homenagem ora Liloca no meu blog... pra vc ver o tamanhoda empatia...beijo

Sandra Knoll disse...

Greg querido,
eu tb sou lenta. Nem sei como me deu a louka de criar um blog. sou meio banza ainda nisso.
brigada pelos comnetários.
um beijo

Enzo Potel disse...

Daniel me falou que você tinha escrito um texto ótemooooo, e sem dúvida: é muito ótemoooo!!! cheio de identidade, originalidade, verdade, coisas tão difíceis hoje em dia...
vc vai publicar um livro, é isso??!
estamos de olho!

boa sorte!
ps: colombo, o pombo, roubou a cena pra mim... fechou com ouro!!