domingo, 20 de janeiro de 2008

iracema


Oi, gente.

Mais um texto da fauna de Aguardo. Mais um texto da minha fauna. Por favor não tenham raiva de Iracema porque eu também sou ela.



Iracema, a hiena, debruçada sobre o muro amarelo que separa o seu terreno do restante do mundo, solta a sua gargalhada de caninos. Protege a propriedade, o que ela tão exaustivamente conquistou, os tijolos escondidos por quilos de argamassa, os vitrais coloridos, as estantes forradas de livros. Iracema, as tetas murchas nunca sugadas, rosna para o padeiro que passa, xinga os colegiais em seus uniformes azuis, ergue o dedo médio a cada beijo que percebe de um novo casal de namorados. Trouxe a cama para a varanda, abraça a arma como a um amante saciado (amante que nunca teve e a quem nunca saciou), coça ali entre os pêlos secos do meio das pernas e não sente nada. Iracema, a hiena, cuida bem de tudo. Espana o pó da casa inteira dia sim dia não e, dia não dia sim, passa um pano molhado no chão. Iracema, a hiena, cimentou o buraco que nunca usou. Achou melhor. Pensou `tudo o que não tem uso merece um fim`. Iracema ajusta o despertador para as seis horas, toma um banho breve com sabão neutro e água fria, prepara torrada e suco de laranja para o desjejum, caminha ligeira em uma das três esteiras da sala, depois troca de esteira e corre. Iracema ainda troca mais uma vez de esteira e nesta, na terceira esteira, quase voa, quase morre. Com o lado oposto ao da unha vermelha que foge do indicador direito mede o pulso. Batimentos conforme o prescrito pelo médico, pelo fisiologista, pelo esteticista, pelo nutrólogo. Almoço, tarde, música leve, solo de flauta, vestido bonito, sapato de salto. Iracema está pronta para proteger a casa. Debruçada sobre o muro amarelo que a separa do mundo ela gargalha, ela xinga, ela ralha. O padeiro que passa, os colegiais em seus uniformes azuis, o novo casal de namorados mal percebem. Apenas mudam de calçada. Iracema, a hiena, deitada sobre o colchão ortopédico, abraçada ao duplo cano da espingarda, fecha os olhos e tenta dormir. Amanhã Iracema precisa acordar e fazer tudo de novo. Tudo de novo. Amanhã Iracema precisa fazer tudo de novo. Iracema, a hiena, sabe que tudo que não tem uso merece um fim. Assim é o mundo, pensa Iracema, acha Iracema, sabe Iracema. Para Iracema, o mundo ser assim não é um problema.

Beijos com a saliva e os lábios de Iracema.

4 comentários:

Léo Kufner disse...

da iracema ou da liloca?

é isso não é?

é um teste... um divisor de águas...

entendi...
entendi...


grande beijo do quarto ao lado!

Ana Claudia disse...

Hoje o dia entediante está mais para a Liloca, rsrs....

Mas achei a Iracema libertadora mostrando dedos obscenos e xingando gente por aí!

Bjos, Iracema

BLOG do CHICO LINGÜIÇA disse...

tá se pasando nego... uixxx... coisa linda essa fauna...

Carnaval em blu??

Beijoca e Hiena
(eu tb sou Iracema, tb, que terror)

Sandra Knoll disse...

sino-me beijada molhadamente por ela.