domingo, 6 de janeiro de 2008

liberdade

‘Olha ali’, ele disse, e apontou para o horizonte que corria até os azuis de céu e mar se confundirem. ‘Lindo, não?’, ele perguntou. Lindo. ‘Como é que tu te sentes?’. Eu me sentia livre. O vento gelado escorria como lágrima em meu rosto. Eu estava virada do avesso, sem medo de gritar palavrões ou de parecer feia ou mesmo de estar sendo ridícula ali, parada no cume daquele desfiladeiro. ‘Te entrega’, ele sussurrou no meu ouvido. ‘Te entrega pra isso, pra essa sensação’. ‘Te entrega’. E eu fechei os olhos e senti as pernas bambearem e senti o vento pelo corpo todo como se o vento me levasse, como se eu estivesse voando, e sorri e o meu sorriso pareceu mais largo do que o habitual, mais sincero, mais verdadeiro. ‘Apaga os limites’, ele disse. ‘Todos os limites’, ele disse. ‘Todos os limites’. E eu apaguei os limites, todos os limites, e o meu sorriso começava na sola do pé e fugia para além de mim, para além do mar que eu sentia sem necessidade de observá-lo, sem necessidade de olhar. E ele falou, ‘vou te levar até aquela pedra, estás vendo?’. A pedra que ele mostrava quase se jogava para o precipício, quase caía. Depois da pedra havia ar e queda. Depois da pedra. E ele me carregou nos braços e me colocou com carinho sobre a pedra e me segurou porque o vento era forte demais e pediu ‘fica descalça’. A pedra era menos fria do que o vento. ‘Te entrega pra isso’, ele gritou para que eu pudesse ouvi-lo. Com os olhos fechados, com os pés sentindo as ondulações da pedra, com o corpo sendo embalado pelo vento, eu me sentia menor e maior, sem medo. ‘Te sentes livre?’, ele perguntou. ‘Totalmente livre?’. ‘É assim a tua liberdade?’. O rosto dele estava cerrado, as mãos dele apertavam os meus ombros. Empurrou-me para mais perto do penhasco. ‘É assim a tua liberdade?’. A minha liberdade era ar e queda, não era pedra. ‘Então te joga’. Naquele instante aquilo que parecia liberdade transformou-se em algo muito doloroso. De onde vinha o vento eu passei a perceber o frio. A pedra sobre a qual eu pisava começou a machucar os meus pés. Ele não era mais ele, a pessoa a quem eu amava, mas era ele, a pessoa que me prendia, que me impedia de sonhar o vôo de águias e andorinhas. O horizonte não era mais o sonho que se persegue mas o alvo que não se alcança. Ele falava ‘te joga’ mas eu não conseguia. E ele repetia ‘não te sentes livre?’ e eu não mais me sentia. E ele falava ‘isso tudo não é lindo?’ e aquilo tudo era horrível. E ele me deixou um segundo ou uma hora entre cair ou não, entre me jogar ou não, entre ele ou não, e depois veio e me abraçou forte e beijou a minha nuca e disse que me amava e eu acreditei e ele perguntou ‘vamos?’ e eu disse ainda não e fiquei ali, abraçada por ele e por várias impossibilidades, me sentindo pequena. Chorando e sorrindo. Triste talvez. Talvez não.

9 comentários:

Paula Braun disse...

Lindo, lindo, lindo como tudo em ti. Tu espalhas alegrias pra todos que te rodeiam, sabes disso. Só tu pra me fazer chorar em pleno domingo, em plena tarde, cheia de textos pra decorar e sem a mínima vontade de sair do computador...rsrsrsrs
Sabes o que sinto.
Beijos imensos.

Léo Kufner disse...

oi seu coiso!

adoooooooooooooro esse texto. meu velho conhecido.

saudades! ainda!

beijos

BLOG do CHICO LINGÜIÇA disse...

neguim... seja bem vindo...

puta texto lindoooo... já virei freguês daqui...

saudade já
beijoca na buchecha

Valéria disse...

Querido Greg

Bonito o texto.
O penhasco, a liberdade, o precípício. Essa voz tamanha dizendo "te sentes livre?". Outra voz estranha que deseja a liberdade e que depois a reconhece como dor.
As vozes infinitas do interior humano, do fracasso daquilo em que nos transformamos.

Ah meu amigo, todos nós sempre a beira do precipício ambíguo.

Um beijo grande
Valéria

Brioches requentados disse...

Greg....que bom ter acesso às coisas que vc escreve!
beijos

gregory haertel disse...

oi, brioches requentados.
quem é você??
beijos

Pepe disse...

Greg, não sei mas acho que esse texto é plágio!
Não vale usar piada interna!
Então também não vale usar texto do VOLÚPIA!!!
Vou fazer um espetáculo novo usando o mesmo tema.
E vou cantar "Eu tô de toalha" pra todo mundo!
Sacanagem!
Só tu pra ser "Sujos" desse jeito!
Deve haver uma tremenda "Parte Doente" em ti.
Que nem o Canadá, nem os coreanos e portugueses conseguiram curar.
Malvado!
Estou com ódio já no começo de ano.
E o Roberto vai ficar sabendo disso.
Nunca mais ele poderá dizer esse texto em cena.
Bafão!

Ana Claudia disse...

lindo lindo lindo!
agora li com calma, sem pagar meus minutos...

escreve mais..
bjos

Ana Claudia

Jerri Dias disse...

Vim conferir por recomendação de minha amiga Jennifer e gostei do que li.
Esse texto me lembrou um pouco Caio Fernando Abreu no início.
Parabéns.