terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

a arte em que acredito


Cada vez mais percebo o quanto a arte que me toca é uma arte contestadora, uma arte não voltada para a sedimentação do que já é conhecido, uma arte não cômoda, não institucionalizada, não apenas bela. Tenho pensado que a arte deveria trazer em seu cânone alguns anti-mandamentos, opostos aos mandamentos bíblicos, sendo que o principal deles, na minha tendenciosa opinião, seria ‘mata o teu pai e a tua mãe’ (em oposição direta ao cristão ‘honra o teu pai e a tua mãe’). A necessidade imposta pela ordem ‘honra’ limita a criação àquilo que pode ser compreendido e reconhecido (sob forma de prêmios ou de aperto de mãos) pelos ‘pais’ (amigos, mestres, antecessores, sociedade, pares). A arte-honra é uma arte eternamente medrosa, dependente dos aplausos, escrava de lágrimas antecipadas. A arte-honra não ousa, ou quando ousa é tão ousada quanto um buquê de rosas enviado em um dia comum. A arte-honra é uma arte segura como uma aliança dourada no anular esquerdo. Não aceita traições.
A arte-mata, o avesso da arte-honra, não tem obrigações. A sua única obrigação é consigo mesma (como um corpo que reconhece em si intestinos e frieira tanto quanto alma e coração). A arte-mata caga. A arte-mata não deve satisfações à sociedade porque não nasceu dela e não é para ela que vive. A arte-mata não depende de parabéns e incentivo público e reconhecimento dos pares. Enquanto a arte-honra é o que criamos ao nosso redor para termos uma suposta segurança (patrimônio, casamento, crenças, planos de saúde, promessas), a arte-mata simplesmente é, como nós somos. Enquanto a arte-honra tem os olhos voltados para o amanhã, sempre querendo saber sobre que solo estará pisando, a arte-mata nada sabe do depois porque não é isso que lhe interessa. Não nega dores e ferimentos e erros e suicídios. Não nega nenhuma possibilidade. Nada lhe é proibido. É essa arte, a arte-mata, a única arte em que acredito.

17 comentários:

Beli disse...

Belo. A 'arte-mata' mata a honra com vômitos pincelados...

Rafael Koehler disse...

bafo.... é só o que consigo pensar no momento!

Léo Kufner disse...

But it's so hard to dance that way
(Tom Waits)

Fátima Venutti disse...

Eu deveria pousar aquyi duariamente e tomar meu café da manhã lendo essas coisas...
Com certeza ia ver o tempo com outros olhos..

Bembão!!!!!!!!!!

beijos em sua alma

turnes disse...

tinha até esquecido do detestável "fonte da vida"! bem lembrado...mas agora o aronofsky recuperou e tem créditos sobrando...adorei a visita, volte sempre, que eu venho sempre aqui.Abração!

CostadeSSouza disse...

viva a arte-mata! belo raciocínio! abraço

Ale disse...

Me faz sentir melhor, me consente, e me alegra pq me consente logo aumenta a auto estima.

Jaqueline Nascimento disse...

A verdadeira arte será sempre "arte-mata"!Quem produz algo pensando em reconhecimento não é artista, mas escravo das formalidades. A arte-mata transforma o caos mundano em beleza, como já diria Nietzsche, um dos autores mais niilistas e descompromissados que já encontrei.
Sou indaialense, mas moro em Curitiba. Ouvi seu nome por acaso em uma conversa com um primo, e descobri seu blog ainda mais ao acaso... uma ótima descoberta, devo dizer. Parabéns.

Jaqueline.

Léo Kufner disse...

Greg?

Cadê você?!

Cláudia I, Vetter disse...

'' um corpo que reconhece em si intestinos e frieira tanto quanto alma e coração'': transcrição perfeita de uma essência.

E é justamente, essa arte de nos move por ser além-vida, capacidades para distribuir o que se alonga verossímil dentro de cada um.
E é temeroso, pois assim que você se posta cru ao mundo, é um desafio de respostas e desenganos pelo amar e pela eséra: é entregar-se a arte e saber que é um caminho sem volta, colocando nossos pés na loucura.
A plena entrega.
.

Gregory, devo dizer-te que é uma honra contatar-lhe e desejo profundamente, que prossiga.

Tenro abraço, até mais!

Cláudia I, Vetter disse...

eséra = espera *

MJ disse...

lindo greg!

mauro camargo disse...

eu fico aqui pensando na transição, quando um artista ou qualquer um, numa explosão natural de arte-mata, a faz tão bem feita e enquadrada, por ser desenquadrada, e, logo depois, sorri intimamente, do primeiro elogio...
esse equilíbrio tem algo de ovo de colombo?

Charles S. disse...

Curti muito esses conceitos... dão nomes aos bois. Uma ferramenta interessante para se pensar e de se pesar as produções dentro da genérica concepção de ARTE. Me surge agora um exercício (divertido até) de tentar classificar nossos trabalhos nessa dualidade.

Ali Assumpção - Liquidificador disse...

ótimo isso, gregory!
tomei a liberdade de reproduzi-lo no www.umescambau.blogspot.com , ok?
abraço

Artur Cook disse...

Opa, me passaram o link do blog a algum tempo e eu realmente gostei do que eu li aqui, só pra não passar em branco fica aqui um parabéns pelos textos em geral.

ana paula disse...

Honrar a arte que mata?
Matar a arte que honra?
A arte que mata a honra, honra a arte que mata?
A arte que mata deixa viver!

Coloca na base da vida o recalque de ser! De morrer; de trepar; e por ambos se conter!
Na virada do conceito:
A arte-honra é a que mata;
A arte-mata é a que honra a dimensão infinita de sentidos que pode ser o viver.

(Ana Paula- namorada do Leandro).