sábado, 15 de novembro de 2008

a eternidade de Pililito

Tempos sem escrever aqui. Na foto, o que resta de Pililito. Assim é a eternidade dele. Que a eternidade dele também seja a minha.

Era assim que Maria o chamava: Pililito. Este era o seu nome e o de todos iguais a ele (círculos doces e achatados sustentados por um palito). Não tinha para onde ir, não tinha planos, não tinha êxtases, não tinha medos, nem sobrenome tinha. Era Pililito e pronto. Como os demais pirulitos. Não pensava em ser mais do que era nem podia ser menos. Não pensava em ser nem podia não ser. Não pensava e nem poderia (melhor para Pililito e melhor para Maria). Na única foto em que apareceu, de Pililito via-se apenas o palito. O resto se supunha dormindo no escuro criado pelas venezianas dos dentes de Maria. As rugas no corpo de Pililito não eram rugas, eram ausências. O tempo não era um secar e encolher do corpo como seria com Maria, como acontecia com frutas e bichos e folhas e outros. A vida de Pililito, o caminho que levava à morte de Pililito, era idêntica à de deuses e de idéias e de crenças e de dores. A vida de Pililito, a morte de Pililito, era (assim como a vida e a morte de idéias e dores e crenças e deuses) um lento desaparecer. Sei mais sobre Pililito do que ele jamais saberá sobre si. E nem o interessaria, acredito. O que interessa a Pililito é ser derretido até que, daquilo que ele era, reste somente o palito mastigado e torto (esquecido na grama de um parque? Jogado na lata de lixo?). A história de Maria eu não quero contar porque a história de Maria será sempre a história do pirulito seguinte, daquilo que há de vir, da angústia que sufocará. A história de Maria eu não quero contar porque a história de Maria é a história tua e minha, a história de um buraco que só é preenchido momentaneamente, a história de uma constante busca daquilo que no segundo seguinte volta a faltar. Aplaudo Pililito, mas ele, sensatamente, não tem ouvidos.

Beijos de um moralista.
E que a paz de Pililito esteja conosco agora e na hora da nossa morte. Amém.

4 comentários:

Rafael Koehler disse...

moralista... heheheh

elogiar-te... sempre!

beijos,

Daniel Olivetto disse...

te odeio...

beijo

Helô disse...

tadinho do pililito!
é só o que posso comentar!

bjos!

Jenifer disse...

" ... a história de um buraco que só é preenchido momentaneamente, a história de uma constante busca daquilo que no segundo seguinte volta a faltar." Fantástico! É exatamente assim, não? - eu me pergunto.
Poxa, não fique tanto tempo ausente, senti falta de me encontrar por aqui.
Beijos.