sexta-feira, 8 de agosto de 2008

eis-me aqui


e que assim seja.
Ele estava mais velho do que podia acreditar. Tentou contar os anos um a um até o ano zero, até voltar a ser uma bola de qualquer coisa sob o novelo de lã dos intestinos da mãe, mas o fôlego fugiu quando chegou aos cinqüenta e três e nisso um dia e uma noite já haviam passado. Apertou um botão, idêntico ao alarme que destravava o carro que ele nunca mais dirigiria, e esperou a refeição de remédios a ser oferecida pela enfermeira do dia. Riu de si, do reflexo de si que aparecia na tela da tevê quando ela ficava escura. Estou ficando escuro, pensou. Estou me eclipsando. Preciso tentar, pensou, ao menos tentar. Molhou a baba seca que cobria os lábios com o resto de saliva que disfarçava a aspereza da língua. Quis falar, mas ninguém ouviu o grunhido grave de um velho quase mudo. Apertou o botão. A enfermeira não veio. Percebeu que estava com fome, mas não tinha como chegar à geladeira (‘o que tu queres está ali, ao teu alcance. Vai, te lança’, lembrou-se dos pregadores todos de sua infância: pais, pastores, médicos, professores. ‘Vai, menino. Por que não sorris?’). Percebeu as coxas molhadas pela urina que saiu do seu corpo, sabia, mas não sabia quando ou como (‘tens que te responsabilizar pelo que fazes. Tudo deve ser calculado. Todo mal pode ser prevenido’, lembrou-se dos pregadores todos de sua vida: amigos, livros, mulheres, filhos. ‘Anda, homem, que a vida não anda por ti.’). Percebeu que a enfermeira havia saído, que não havia mais enfermeira, que não havia mais ninguém, que na sua mão dormiam apenas um botão inútil e uma sala de mentiras (‘Ele está ali’, diziam de deus, dos santos, da força cósmica, dos anjos. ‘Estou aqui’, diziam as sucessivas cônjuges o abraçando. ‘Nós também estamos’, o coro bêbado dos amigos tentava, desafinado, um canto). O velho estava sozinho. E o velho entendeu que ele e a vida ainda faziam o que ele e a vida haviam feito o tempo inteiro: brigavam para ver quem guiava e quem seguia. E o velho entendeu que era sempre ele quem perdia, que fora sempre ele quem perdeu. O velho entendeu que ele nunca tivera o controle de nada: de esfíncteres, do sono, do que queria ou desejava, dos outros, até mesmo os próprios sonhos o velho nunca controlara. E o velho entendeu que não acreditava em nada e que não fazia falta acreditar. Então o velho resmungou, lábios grudados, ‘eis-me aqui’, e a vida veio, melhor e mais bonita do que a enfermeira que desaparecera e, cobrindo com o vento da palma da mão os olhos do velho, sussurrou ‘não há mais dor’. E o velho sorriu. E não houve mais dor alguma. E a vida abriu as cortinas brancas da sala do velho e, voando, partiu.

beijos

2 comentários:

Daniel Olivetto disse...

Ai Grebito... acabei de ver
"Elsa e Fred" [lindo pacas!!!] e venho parar aqui... ai que finde emocional... altos e baixos... sempre essencial acabar meus dias aqui no teu blog [felicidade é isso... não é o que a gente combinou?] luv yu!!!

Jorge disse...

meu...
lindo!
e tudo acaba.
abraços