segunda-feira, 9 de junho de 2008

odeio poetas


Hoje um pardal morreu nas asas do tempo. Chocou-se contra o vidro. Ele ainda via um longo caminho, via mato, via morro, via dia quase se transformando em noite. Ia rápido, o pardal, assoviando uma melodia do Tom. Tinha um vidro. Tinha um vidro. A melodia do Tom bateu o bico e caiu na grama. O pardal morreu. Não morreu triste. Quem ficou triste fui eu. E tenho vergonha. Não quero ser o homem que antecipa o vidro, nem quero ser vidro, nem quero ser medo. Quero o meu vidro como o pardal teve o dele. Sem tristeza. Assoviando uma melodia do Tom.

Odeio poetas. Poetas que enaltecem poetas. Poetas que escrevem textos que afirmam que os poetas (eles próprios) são a brisa que eriça os pêlos da humanidade doente (traduzindo: eles, os poetas, seriam a nossa cura). Odeio poetas porque poetas são purpurina. São laquê. São peruca. O vento não os balança. São escultura inabalável erguida do barro do auto-elogio. Poetas não fazem poesia. Poetas fazem rimas para almoços beneficentes, fazem cartas para os pais, para os amigos, textos para cerimônias de formatura. Poetas engatinham procurando palmas, apoio público, financiamento. Poetas odeiam poesia. A poesia que vive nas dobras da pele, que fede, que dói, que foge, irrita os poetas. A poesia que não pode ser escrita no jornal de domingo, a poesia que não serve para o sussurro no ouvido da noiva, a poesia que afunda nos bueiros das veias, a poesia que morre logo depois de formulada, essa poesia, que nunca trará louros a quem a produz, que nunca trará fama nem amores nem dinheiro, essa poesia avessa ao sucesso é a poesia que não pertence aos poetas. Vida eterna à poesia. Morte imediata aos poetas.

Beijo

2 comentários:

nanepereira disse...

Oxxi que crítica F... muito bom! hehehe.
E eu continuo por aqui gostando de poetas e poesias, de poetas ‘pessoas’ que enriqueceram o meu dia a dia. De poesias com purpurinas que às vezes aliviam-me algumas dores. Talvez ‘tudo’ faça parte do equilíbrio. Mas confesso que as vezes me incomoda esse meu excesso de otimismo.
Bju no coração!

Jorge disse...

nem sei o que dizer.
quer dizer, sei sim.
GOSTEI!

;)