domingo, 13 de abril de 2008

carmem, por jorge


Não me interessa a realidade, me interessa o que eu penso que a realidade é. Corro o risco de falarem que é escapismo. Escapismo é ter certezas.

para Daniel Olivetto
Apenas ela, morta, e eu, magro, estamos no estômago da capela. Mais ninguém. Eu me sinto sozinho como eu sempre estive e como nunca percebi. E penso: ‘Carmem’, e quero que Carmem, a morta, pense: ‘Jorge’, mas Carmem, a morta, não pensa, e eu, Jorge, então falo ‘Carmem’, e quero que Carmem, a morta, fale: ‘Jorge’, mas Carmem, a morta, não fala, e eu, garganta seca, cabelo ralo, então grito: ‘Carmem’, e quero que Carmem, a morta, grite: ‘Jorge’, mas não é ela quem grita: ‘Jorge’ e sim dois ou três amigos bêbados que ainda estão comigo (é deles o grito): ‘Jorge, a tua mulher morreu. É assim a vida. Sossega. Te acalma. É assim a vida’.
A vida não é assim. Os dois ou três amigos bêbados estão em outro lugar (outro bar ou outra capela) e sem que eu precise gritar: ‘Carmem’, nem mesmo falar ou pensar: ‘Carmem’, Carmem, a morta, ergue-se linda do colchão em que era velada (está jovem) e caminha até mim, até o meu corpo (também jovem), e responde: ‘sim’, e completa: ‘sim’, e ainda (sim): ‘por toda a vida’. E, estranho, eu não me sinto sozinho

Beijos

4 comentários:

Rafael Koehler disse...

eis que está chegando a hora do lançamento de "Aguardo"... eu vou! hehehehhehe...

=)

Paula Braun disse...

Liiiiindo. Me deu inspiração pra escrever um curta. eu estava sem idéia e preciso.
Enfim... Sim.
Beijo.

Sandra Knoll disse...

são pesentes especias os teus textos.
Beijos

Jorge disse...

"Aguardo"... ADORO!

PARABÉNS!