segunda-feira, 10 de março de 2008

pés para os pés de uns e patas para os pés de outros


oi, gente.
'Volúpia' estará em Curitiba nos dias 20 e 21 deste mês. 'Aguardo' deve ser finalmente lançado em abril. E a fauna continua.


A criança montava o cavalo como se o cavalo fosse uma nuvem em um sonho. Descuidada (os pais apavorados erguiam braços e gritos perdidos na linha do horizonte), a criança tinha a pele do rosto esticada pela velocidade da corrida. O cabelo loiro e fino voava na mesma direção da crina, ambos ficando um tempo ainda onde o rosto da criança e o rosto do cavalo (porque aqui não faremos diferença de espécie, não diremos focinho para uns e face para outros, não diremos pés para os pés de uns e patas para os pés de outros, não diremos tampouco lombo para um deles apenas, nem instinto para apenas uma das partes, seja o cavalo, seja o menino) ficando ainda um tempo onde o rosto do cavalo e rosto da criança já não mais estavam. Os pais do menino, donos do sítio, donos do cavalo, dono do menino, preocupavam-se com os três. Com o cavalo, pelo preço. Com o sítio, por hábito. Com a criança, por amor. Chamaram os bombeiros e a polícia para resgatar o menino, para parar o cavalo, para frear a corrida. A mãe chorava (os braços permanentemente erguidos como se cutucando um deus sonolento para que não dormisse). O pai chorava (os olhos secos como se cada lágrima que caísse pudesse atrapalhar o sono divino). Cada um chorava com as suas crenças, abraçado a elas, embalando-as, ninando as crenças na impossibilidade de ninar a criança que voava descuidada levada pelo cavalo. Chegaram polícia e bombeiros e, ambos, bombeiro e polícia, sirenes seguindo o trotar de cavalo e menino, os seguiram. E ambos, polícia e bombeiros, os pegaram. E ambos, menino e cavalo, voltaram. E ambos, bombeiro e polícia, receberam beijos e honorários. E ambos, pai e mãe, sorriram. E ambos, cavalo e menino, estão presos em seus lugares, em suas baias (porque aqui não faremos diferença de castigo. Correr é correr para cavalo e menino. Estar preso é o mesmo para menino e cavalo. A foto que encabeça o texto é a foto do menino. No porta retratos ao lado da cama dos pais pode-se ver a foto do cavalo).


beijos da criança (ou do cavalo)

6 comentários:

Sandra Knoll disse...

As emoções que me pegam...e tu é dono
de umas delas! Dessas coisas lindas que leio aqui nesse blog.
Gostei muito do Volúpia.
Beijo pés e patas e nem quero saber de quem são!

Paula Braun disse...

E a criança? Ninguém resgatou?
Cavalo e menina nasceram pra ser livres, nem porta retratos nem pais nema nada. corre menino.
Beijo.
(post novo)

Paula Braun disse...

Solta o menino e o cavaloooooooooo! Por favor! Os pais tem que entender que o vento agora é quem cuida dele.
Beijo.

Daniel Olivetto disse...

cavalos me mordam, menino!

tu sempre me quebra as patas, e me estica a cara molhada

(...)

beijocas
vamos marcar um finde livre, livre mesmo

Sandra disse...

o problema é quando vc consegue entender a crase....o que a gente faz com as pessoas?

Rafael Koehler disse...

senti saudades de andas a cavalo.

fazem alguns anos que não ando mais.

E ambos, cavalo e menino (eu), sentiram saudades de quando corriam juntos... (raras as vezes, mas acontecia).


bjs