sexta-feira, 14 de março de 2008

lágrimas em cálices, rodo para o choro


Este é um texto parado, onde nada acontece. Sem metáforas. Um texto lago. Um texto poça. Partindo da foto, o texto não anda. Como um maratonista incapaz, o texto não corre. Como um avião sem céu, ele não voa. É um texto foto. Para ser amassado e esquecido nas páginas emboloradas de um velho álbum de retratos.

O faxineiro dorme em algum canto do cenário, longe da lente da Cannon. Não tem nome. O faxineiro não tem nome. O faxineiro tem rosto, mas não o vemos. Tem voz, mas não fala (nem ronca). Tem vontades, mas elas estão escondidas pela cortina do sono. O rodo (apoiado bêbado na moldura da foto) cruza a única perna de encontro ao ralo. Uma janela (fechada) sugere uma saída (fechada), mas a janela que se vê não tem vida, é apenas reflexo de uma outra que se supõe, de uma outra que, como o faxineiro, talvez durma em outro local que não o do papel do retrato. As águas (exceto por um dos cantos) estão paradas (como vinho deixado no cálice, como lágrima restrita ao olho). No pequeno ângulo em que se agitam (como lágrima que mancha a gola da camisa do namorado, como vinho pintando o lábio que recusa o beijo), as águas mudam somente a textura, não mudam o curso, não se empurram em direção ao ralo como uma multidão que necessitasse de espaço. As águas da foto não se acotovelam. As águas da foto se agitam em um dos cantos, mas logo se aquietam. As águas da foto são irmãs do fotógrafo. O fotógrafo e as águas poderiam usar os mesmos vestidos. Iguais a ele (ao fotógrafo), elas parecem não existir. Porque rodo há (que o vemos). Ralo há (cortando a foto como um cinto grosso corta a cintura de um vaqueiro). Janela também (não para ser tocada. Mas ali está. Fechada). O faxineiro (mesmo que em suposição) é crível. Mas, nas águas, eu creio (e logo delas me torno descrente) apenas no canto em que se agitam. E, no fotógrafo (é alguém? Onde está?), em lugar nenhum eu acredito.

Foto e texto sem beijos.

4 comentários:

Rafael Koehler disse...

ui que triste.

não sei se fica mais triste quando nos identificamos. Ui ui ui...

beijos gigantescos para você.

Sandra Knoll disse...

Fora de mim chove e aqui dentro, deserto!

Daniel Olivetto disse...

Grebs faz Alzira explodir pra dentro, pra fora pra tudo que é lado...

te amo

Jacqueline J H C disse...

Apreciei seu modo de expressão. Sensível e atraente!

As fotos que ilustram o blog são suas?

Convido-o a visitar meu blog:
http://jackieblumenau.blogspot.com/

Abraços.