segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

o bichinho horroroso da ponta do dedo


Oi, gente
Mais um, antes que a fauna acabe.



Nada no mundo era mais feio do que o bichinho horroroso da ponta do dedo. Problema de nascença. A mãe, identicamente feia, morrera no parto. Criado por tios-avós bêbados, o bichinho horroroso da ponta do dedo nunca foi popular. Na escola, o bichinho horroroso da ponta do dedo sentava sozinho. O seu primeiro beijo ele teve em sonhos, e desde lá não teve mais nenhum. O bichinho horroroso da ponta do dedo descobriu a masturbação como uma mulher ansiosa descobre o cigarro. E com a masturbação descobriu a acne e as câimbras na mão. E, com a acne, o bichinho horroroso da ponta do dedo conseguiu uma superação: ficou mais horroroso ainda. Foi ao médico e o médico desmaiou. A curandeira dispensou honorários e fixou na porta do barraco em que atendia um recado breve: ‘fechado para nunca mais abrir. Dom renegado’. A farmacêutica sugeriu, olhos cerrados, eutanásia. Foi exorcizado pelo bispo, que chamou o papa. Foi exorcizado pelo papa. Mas um belo dia, manhã sem nuvens, o bichinho horroroso da ponta do dedo ousou olhar para o mundo com olhos de bichinho normal, sem as lentes da sua feiúra. E o bichinho horroroso da ponta do dedo viu que o céu era azul e o mar também. E o bichinho horroroso da ponta do dedo pensou que poderia ser feliz e que poderia voar e que poderia fazer filhos no útero que desejasse, na fêmea que escolhesse, do modo que lhe aprouvesse. E o bichinho horroroso da ponta do dedo roubou do armário velho de uma mercearia a faca sem ponta da dona capenga. E o bichinho horroroso da ponta do dedo esperou em um beco pelo útero que desejou, pela fêmea que escolheu. E, do modo que lhe ocorreu, o bichinho horroroso da ponta do dedo apertou contra as costas da fêmea a lâmina cega da faca roubada. Mas, de um jeito que surpreendeu o bichinho horroroso da ponta do dedo, a fêmea reagiu e agarrou a faca. Atônito, surpreso, estático, o bichinho horroroso teve o rosto cortado. E pela segunda vez na vida e nessa história o bichinho horroroso da ponta do dedo conseguiu uma superação: ficou mais horroroso ainda. O que se fala da morte do bichinho horroroso da ponta do dedo é que morreu sozinho, velho, com o rosto enfaixado. Isso é o que se fala, porque da morte do bichinho horroroso da ponta do dedo ninguém sabe nada.

Beijos feiosos deste bichinho

5 comentários:

Rafael Koehler disse...

fiquei com pena do bichinho horroroso da ponta do dedo.

ui...

Daniel Olivetto disse...

greg greg greg

no words pra essa fauna!

quando vens pra ilha me visitar?
[quer dizer, tô super no débito também!]

abraçón!

Paula Braun disse...

Adoro a Spoleta. Ela não desiste. Ela é foda. E gostei também do bichinho horroroso da ponta do dedo. Vou descobrindo os teus textos mais e mais, sempre (desde muito tempo, né?) assim "como uma mulher ansiosa descobre o cigarro". Tá foda Greg. Eu tua fã, tua amiga, família sempre.
Amu tu, com todo o coração. Beijo.

Heloíse disse...

tadinho! fiquei com pena dele!
muita mesmo! pq ele não podia ser feliz?! tdo mundo sempre arranja uma tampa pra sua panela, pq ele não?! coitado! faltou amor próprio!

Enzo Potel disse...

"Oi, gente
Mais um, antes que a fauna acabe."


HAHAHAHAAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAA
banalizando o aquecimento global